O coletivo EITA Ação Cultural, tem uma atuação recente e muito necessária por sinal na cidade de São Paulo.
Fui convidado a pesquisar como ator criador junto a este grupo, desta vez o EITA está com um olhar específico sobre os fluxos Migratórios da população nordestina para a região sudeste, principalmente na época da Ditadura Militar. Dentro do leque de atividades que contemplarão esta pesquisa escolhemos três grupos de Teatro com trabalhos significativos na cena brasileira, para fazermos algumas residências artísticas, com trocas práticas e teóricas.
Eu poderia estar falando aqui o quanto foi rico nossas discussões a cerca do tema, mas prefiro expressar a minha satisfação em quanto artista. Espero que esse pedacinho de mundo se multiplique cada vez mais, para que todos tenham acesso.
Tomados por um desejo de Mirar, Migrar! Miramos desta vez nossos olhares e pesquisas para o Rio Grande do Sul, mais especificamente a cidade de Porto Alegre, para podermos conhecer e partilhar um pouco mais do fazer teatral da Tribo de Atuadores Ói Nóis aqui Traveiz.
O que te move? O que é luta? O que faz pulsar? Para quem estamos fazendo? Por que estamos fazendo? Como nos alimentamos? Existe diálogo? Por que a rua? Com quem podemos contar? Foram perguntas frequentes que me passaram durante o voo.
Ao desembarcar percebi que iniciava ali uma semana bem diferente das outras, nós do grupo EITA estávamos cheios de inquietações.
Fomos recebidos e instalados na sede da Terreira da Tribo, logo de cara fiquei muito envergonhado com minhas pequenas perguntas de um jovem ator estudante da arte. As respostas estavam todas ali, pregadas nas paredes do espaço, cartazes que contavam a trajetória de resistência, e que resistência, 37 anos de grupo. Brecht, Artaud, Beckett, Lorca e muitos outros que fazem parte da minha construção de pensamento estavam fazendo a memória daquele lugar.
Tivemos a honra de sermos recebidos por um dos atores que no mesmo dia nos mostrou todo o espaço e nos contou a história de cada parafuso do lugar. Quando chegamos à sala espetáculos, vi uma estrutura enorme montada com grutas, areia, árvores, passarelas, tronos, uma cenografia gigante e encantadora. Com os olhos cheios de lágrimas ouvi da boca do Beto o ator da Terreira que nos acompanhou: - Esse é o nosso trabalho, nós construímos tudo, a gente bota a mão na massa. O que a gente não sabe a gente aprende.
Aquilo tudo era a cenografia de Medeia vozes, o atual espetáculo do grupo, que infelizmente não consegui ver.
Sinceramente eu não tinha mais pergunta a fazer, a única coisa que me batia era a vontade de viver aquela semana intensamente com artistas que eu realmente admirava. Eu ficava surpreso a cada minuto, pois estava vivendo ali, algo único, fiquei diversas vezes refletindo sobre o modo de produção do Teatro Paulistano.
Logo descobri que ali no meio daquele cenário funcionava uma escola gratuita de formação pra atores com uma bela carga horária, e com ótimas referências de pesquisas. Chamou-me a atenção uma disciplina que estava na grade dos alunos, história do Pensamento Político. Que legal ! Eu estava vendo a prática caminhar junto com o discurso. Claro que nós EITA’S abraçamos a escola também, fizemos aulas, assistimos discussões e improvisamos bastante.
Na aula do Paulo fundador do grupo, falamos sobre o Teatro Oficina. Como é bom ouvir a história do Teatro Brasileiro, vinda de pessoas que viveram esta história, o papo sempre vai para além da cena, para os bastidores, para o movimento político da época.
Estávamos conhecendo cada cantinho da Terreira da Tribo e nos deliciando com a troca.
Dava pra perceber nitidamente que a Tribo Ói Nóis aqui Traveiz, é uma tribo de multiplicadores de arte. Além do curso de formação, os atores da tribo estavam todos os dias se dividindo entre os bairros periféricos da cidade, para darem oficinas livres e gratuitas de Teatro.
Conversando com alguns atuadores, pois agora já entendo melhor o significado da palavra, constatei que o processo de criação do grupo não está somente na sala de ensaio. Cada vez que o grupo se desdobra sobre um assunto, este assunto se espalha na formação, nas oficinas livres, multiplicando o pensamento.
O trabalho que lá está sendo feito é admirável e vejo sim como exemplo de discurso atrelado a prática pra qualquer artista. É muito importante dizer que este trabalho está sendo feito sem subsídio algum, na raça.
Agora no retorno, ainda estou digerindo tudo o que esses dez dias fizeram comigo. Ouvi uma vez de um mestre que as fichas caem agora, amanhã ou daqui a muito tempo.
O que me parece é que tem muita gente viciada em pegar o edital e forjar uma contrapartida, pra dizer que seu projeto tem um cunho democrático, político e social, quando na verdade isso deveria ter com ou sem o edital em qualquer trabalho artístico.
Vou deixando aqui as minhas palavras, até porque ainda não sei falar de tudo isso. Só sei sentir.